Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009
Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009
Pequena insónia
Amanhã, ou melhor, daqui a umas horas, começarei a escrever um novo capítulo da minha vida. Não consigo dormir, tenho uma pequenas insónia. Tal vez porque... Tenho medos, confesso. Não seria honesta, nem comigo mesma, nem com o mundo, se não o admitisse. Não seria uma mulher adulta e madura. Não seria, sequer, corajosa. À memória, acorre-me a citação que, um dia, fiz a um amigo especial que se preparava para partir, para se lançar no mundo à procura do seu lugar: «É corajoso quem prossegue o seu caminho enfrentando os seus medos e tendo consciência dos perigos e não quem nada receia e nada pondera!».
Serão, pelo menos, 5 anos de guerra, cheios de novas batalhas, com muitos momentos duros e, espero, também, algumas glórias - porque aprender, é magnífico e lidar com o ser humano, lindo. A Medicina começa, de verdade, agora. É disso que tenho tanto medo!! De não saber, de não conseguir, de errar... Todos o têm, disseram-me várias pessoas, várias vezes, mas não me consolo ou conformo. Quero ser e fazer sempre mais, sempre melhor. A minha cabeça reconhece e recorda o velho conselho de uma professora querida e muito amiga: «Aprende a aceitar os teus erros com amor e tolerância!»; mas o coração teima em zangar-se . É o meu perfeccionismo! Aquilo que me poderá fazer ser, um dia, espero, uma boa médica, é também aquilo que me traz, sempre me trouxe, tanto sofrimento na caminhada.
Sempre fui nostálgica e por isso, é inevitável recordar o meu passado. O curso foi muito duro para mim, nas minhas cirscunstâncias de então. Hoje seria mais fácil. Se eu soubesse pelo que iria passar, tê-lo-ía feito? Eis uma pergunta para a qual não procuro resposta. Não vale a pena! Hoje, ao começar, alegro-me por não saber o que me acontecerá de bom e de mau. O prazer e o proveito estão na viagem, não apenas no destino. E embora nós nunca estejamos, de facto, preparados para alguma coisa, sei que, hoje, estou melhor preparada que ontem.
Há uns anos atrás (mal posso acreditar que no que estou a dizer...), observei o velho provérbio judeu: «Por vezes, é preciso bater no fundo para voltar a subir!». E assim foi! Na subida, deitei mão de tudo quanto me impressionou a sensibilidade, como a luz impressiona um rolo fotográfico. Esta noite, quero recordar alguns desses tesouros de que me apoderei. E quem melhor do que o pai da Medicina, para me sossegar o espírito e me ensinar umas lições de vida acerca da própria Medicina, na véspera do começo?
«A vida é curta e a arte longa, a ocasião fugidia, a experiência enganadora, a decisão difícil.»
«Que o teu alimento seja a Medicina e que a Medicina seja o teu alimento.»
Por fim, porque uma grande obra nunca se esgota e porque o que é belo deve ser visto e revisto, imortalizado na memória dos sentidos e do coração, aqui fica a letra de uma canção, qual hino à esperança e à luta pelos nossos sonhos, para que todos quantos a lerem (incluindo eu própria) possam retemperar forças nos momentos agrestes das suas batalhas, como eu o fiz tantas vezes no passado. Porque, afinal, a vida escreve-se de histórias de grandes lutas por grandes causas, individuais ou colectivas... E eu sei que, sim, vale a pena lutarmos pelos nossos sonhos!!
«Climb every mountain,
Search high and low,
Follow every byway, every path you know...
Climb every mountain,
Ford every stream,
Follow every rainbow,
'Till you find your dream!
A dream that will need,
All the love you can give,
Everyday of your life,
For as long as you live!
Climb every mountain,
Ford every stream,
Follow every rainbow,
'Till you find your dream!»
Pronto! Agora, estou pronta para guerra! Ui... Que sono...
Rainbow Dream's Girl
Domingo, 4 de Janeiro de 2009
Não é preciso ser-se louco...
Despertei, sobressaltada, pelo toque familiar de um velho telemóvel, aquele número que tive desde sempre e que, agora, já quase ninguém usa para me contactar. Era uma amiga, comunicando-me, por fim, a sua escolha. Não posso dizer que tenha sido uma conversa agradável, pois a cobertura de rede na linha da Beira Baixa ainda é péssima e a chamada caía constantemente. Acabámos por desistir da conversa, mas ainda fiquei a saber o que ela tinha escolhido e mais ou menos, como se sentia. Fiquei a pensar um pouco sobre o assunto e de súbito, a decisão que eu já levava tomada dentro de mim sobre a minha própria escolha, surgiu-me ainda mais nítida ao meu olhar introspectivo. Era como se eu tivesse posto uns óculos para olhar o mundo à minha volta e descobrisse que havia pássaros no céu, quando, antes, apenas adivinhava os seus contornos. Voltei a cair no sono, embalada pelo oscilar do trem nos carris.
Na manhã seguinte, estava calma. A noite da chegada tinha sido razoavelmente agitada em trapalhadas e conversas, mas a decisão estava tomada e firme e organizar as alternativas de escolha não foi difícil. Segui para o nº 61 da Avenida da República, em Lisboa, com a minha mãe por companhia e logo à porta encontrei o meu querido colega grego, com a sua mulher. Passámos toda a manhã a conversar. Ele estava visivelmente nervoso, mas eu consegui conter-me até chegar à porta da sala de escolhas, no 9º andar. Estava, apenas, a um passo de conseguir o que queria. Entretanto, juntaram-se-me os meus pais. Fiz questão de que fôssem os dois, pois são as pessoas mais importantes na minha vida e já que não os tive por perto no dia em que soube que tinha terminado o curso de medicina e, portanto, ganho a tão longa guerra, concretizado o tão desejado sonho, queria tê-los ali comigo, no momento da escolha. Quando saí do edifício, em plena Avenida da República, apetecia-me gritar e pular de alegria! Os telefonemas que fiz para as pessoas que me eram queridas, não me bastavam. Sentia que podia explodir de felicidade. Sorria. Toda eu me desfazia em sorrisos e em lágrimas contidas e os meus pais, enternecidos, miravam-me. Foi nesses instantes que tive a certeza absoluta de que tomei a decisão certa! Se assim não fôsse, não me sentiria tão feliz... Este é o caminho para os próximos 5 anos. E se ao longo do percurso vier a perceber que tenho de tomar outro rumo, posso estar segura de que precisava ter caminhado até ali para fazê-lo.
Segui viagem até Letras, para um fim-de-semana de sonho. Na 3ª feira, cheguei ao hospital, fui à sala de enfermagem buscar a chave do vestiário e eis que me deparo com a seguinte frase colada na porta do chaveiro: «Para trabalhar neste serviço, não é preciso ser-se louco... Mas ajuda muito!». Primeiro, fiquei boquiaberta. Depois, assustada. Por fim, sorri imenso. Só um enfermeiro podia ter colado aquela frase ali...
Peguei a na chave, saí da sala e dirigi-me para o vestiário. No caminho, pelo corredor, o dito enfermeiro vinha com cara bem-disposta e em passo acelerado.
- RM, fôste tu que colaste aquela frase no chaveiro, não fôste? - perguntei-lhe.
- Qual? - retorquiu-me, com cara de quem se fazia desentendido, ao que eu lhe lancei um olhar de reprovação. - Ah, essa? Sim, doutora, fui eu. Porquê?
- Por nada em especial. Apenas a achei engraçada. Escolhi a especialidade na 6ª feira passada e agora que a leio, fez-me todo o sentido... - respondi. RM soltou um riso malandro e disse:
- Bem-vinda à Medicina Interna!!
Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2009
Daqui para a frente...
Se não puderes ser um pinheiro no topo da colina,
Sê um arbusto no vale, mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas!
Douglas Malloch
Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008
Diazepam, bromazepam, fluoxetina, sertralina, topiramato...
Sintomas são frequentemente confundidos com sinais, que são as alterações percebidas ou medidas por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde. A diferença entre sintoma e sinal é que o sinal é aquilo que pode ser percebido por outra pessoa sem o relato ou comunicação do paciente e o sintoma é a queixa relatada pelo paciente mas que só ele consegue perceber.
Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação do próprio paciente. A variabilidade descritiva dos sintomas varia enormemente em função da cultura do paciente, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
Quando de um atendimento de alguém por um profissional de saúde, compete ao profissional saber colher as informações necessárias ao pleno conhecimento das características dos sintomas.», in Wikipedia.
Chega e sobra para se esclarecer e compreender o que vou dizer!
Sintomas de uma socciedade doente
São muitos e de diversa natureza. Hoje, saliento um: a toma de medicamentos do fôro psiquiátrico.
Doenças como a depressão, ansiedade e o transtorno bipolar são, apenas, alguns exemplos das doenças psiquiátricas que alguns chamam "da moda" (porque, de facto, estão em moda, mas não são moda) e que atingem cada vez mais pessoas em todo o mundo, de todas as idades, géneros e raças. Sintomas importantes, de alarme!
Todos nós já ouvimos falar destas doenças, ainda que muitos não saibam, exactamente, do que se trata.
Como médica, tenho tomado um contacto mais realista com a situação. Ao passar pelo Centro de Saúde este ano, fui fazendo uma melhor ideia da quantidade enorme de pessoas que se sente ansiosa e/ou deprimida. E não se pense que são, apenas, os idosos, dada a sua idade e seus achaques, que se servem dos medicamentos. É ver adolescentes, jovens adultos e adultos de meia-idade também! Incrível!
Apesar de tudo, o que mais me procupa como médica e, sobretudo, como ser humano, é aperceber-me da quantidade de adolescentes e jovens adultos que se sentem deprimidos e ansiosose que são obrigados a recorrer à ajuda de medicamentos. Polémicas à parte, há um número elevado e real de gente a precisar de ajuda!
Tenho amigos íntimos que tomam ou tomaram medicamentos. Nem falo dos ccolegas ou companheiros ou conhecidos...
Que sociedade é esta (não apenas a portuguesa, mas a mundial) que permite que os seus jovens andem assim? Falta de emprego, falta de estímulos, agressividade do mundo, falta de sonhos e objectivos, falta de tempo... O tempo... esse algo que não conseguimos tocar, segurar, controlar e que é tão relativo como só ele próprio, tornou-se num bem precioso dos dias de hoje! Tempo para cumprir com todas as obrigações que o trabalho nos impõe, tempo para a família, tempo para os amigos, tempo para namorar ou para encontrar um namorado, tempo para comer, tempo para dormir!!! Até me falta o ar...
Observo com péssimismo a realidade actual, mas encaro sempre o futuro com fé e esperança. Não há outro caminho! Se formos negativos, com certeza que não conseguiremos melhorar o estado das coisas. Se formos optimistas... Bom, não há uma promessa de que o consigamos, msa pelo menos há a possibilidade.
É triste ver pessoas jovens sem ânimo, nem erngias. Pessoas que deveriam estar no auge das suas capacidades, tirando o maior proveito delas, encolhem-se em cantos escuros, refugiam-se em casa ou no que quer que seja, porque não conseguem resolver sózinhos os seus próprios problemas.
A questão filosófica do sentido da vida não tem resposta universal, nem definitiva, dizem. Entendo... E no entanto... Ouso discordar, de uma certa maneira. Acredite-se no que se acreditar, haja ou não haja um sentido prévio para a existência do ser humano, uma vez que aqui estamos todos, a mim parece-me que só há uma coisa a fazer: tentar ser feliz! É este parte do meu sentido para a vida. A partir daqui, cada um que o complete como bem entender.
Faaço a minha parte, cmo médica e como pessoa, para ajudar aqueles que sinto que precisam. E à minha maneira, rebelo-me contra aquelas coisas que eu acho que nos roubam qualidade de vida e nos tornam doentes.
Creio que todos deveriamos pensar nisto. Ainda que a passos muito curtinhos, a Humanidade tem vindo a evoluir. Continuemos, portanto. Perguntemo-nos o que é que queremos para a nossa vida e persistamos para o conseguir!
Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008
Desabafo perdido
Dou graças a Deus pela enésima vez por ter a ventoinha, que me consola um pouco neste calor ardente. Enquanto esfrego com vigor o cu da frigideira, como uma boa e aplicada dona-de-casa, balanço o corpo ao ritmo da música animada que passa na rádio e sopro, de quando em quando, a franja teimosa que me cai sobre o rosto. Não admira, pois, que tenha ainda mais calor.
Mas não faz mal, não me importo, sorrio. Estou contente, sinto-me bem. Pela janela aberta não me entra, apenas, o calor; através dela chegam-me, também, os gritinhos felizes e extenuantes da criançada. Têm-me dado cabo da cabeça a tarde toda! O Tó, o meu vizinho, faz 8 belos
aninhos e tem os amiguinhos cá em casa. Quando há pouco falava pelo telefone com C., ela perguntou-me: «Que se passa? Tens a creche em casa ou quê?». Mal conseguia ouvi-la, de tal forma era a algazarra. Abeirei-me da janela da cozinha e espreitei para o pátio dos meus vizinhos, pronta para lhes lançar um ralhete, mas só consegui sorrir quando vi o mar de brinquedos espalhados e disse à minha amiga que falasse mais alto. Hoje, também ela faz anos: 26!- C., não tens saudades das festinhas de aniversário da nossa infância? Aquelas em que havia pãezinhos com queijo, fiambre e manteiga, bolos e pudins, sumos e leites, balões coloridos, chapéuzinhos e serpentinas?
- Claro que sim! Naquela altura, quase todos os nossos colegas de escola eram nossos amigos...
- Sim. Se bem que, por esta altura, havia muita gente de férias, ainda conseguíamos reunir uns quantos para fazer patifarias!
- Pois... E hoje, somos meia-dúzia de gatos pingados.
- Sabes o que me deixou a pensar há bocado? Que já não posso fazer festinhas dessas! Queria ter feito uma dessas!
C. riu-se com gosto e eu continuei.
- Sério! Diz lá que não te apetecia!
- Por acaso...
- Agora, festinhas dessas, só quando tivermos filhos... Ou sobrinhos! Quero sobrinhos, ouviste??!
- Pois...
Suspirámos ambas.
Não há pressas, mas há estranhezas. Preferi não abordar com ela este tema hoje, mas o meu 26º aniversário pesou-me. Este ano, o tempo passou demasiado depressa e a consciência da efemeridade escorregou, de repente, para mais perto. Ainda há pouco estávamos a entrar nos 20 e a começar a desfrutar da juventude com a liberdade dos adultos e agora... estamos tão próximos dos 30...
Não tenho complexos com a idade. Não me preocupa dizer a idade, não penso que envelhecer seja essencialmente mau. Apenas lamento a escassez de tempo. Há tanta coisa que quero fazer e vejo tão pouco tempo... Vejo que o tempo voa e que somos forçados a desperdiçar muito em coisas que se tornam supérfulas e isso irrita-me!
Este ano, pela primeira vez nas nossas vidas, C. e eu desejámos feliz aniversário uma à outra a partir dos respectivos locais de emprego. Que estranho...
A água ficou a correr, eu fixei os azulejos da parede, com a frigideira numa mão e o esfregão na outra, enquanto pensava em tudo isto e acordei deste sonho sonhado acordada com uma música bem adequada, cantada "em estrangeiro" por uma portuguesa.
Fechei a torneira e continuei a pensar, recordando o meu aniversário, apenas há cerca de uma semana atrás.
À volta da mesa, uma quantidade de caras novas, amigos e companheiros de aventuras recentes; apenas dois rostos antigos, os mesmos desde há anos. Senti-me muito feliz por tê-los todos ali comigo. Aqueles que ali estavam presentes quiseram celebrar comigo um momento espcial para mim, ainda que a amizade fôsse recente. O meu carinho ficou com cada um deles. Para dentro, a sós comigo mesma, um olhar para cada um deles; um pensamento de alegria, por tê-los ali; um pensamento de tristeza, por ter de deixá-los, em breve. Ainda faltam 4 meses, é certo, mas voarão, que eu sei... Como voaram estes meses até agora... De uma coisa podem ter a certeza: vão no meu coração! E voltarei, sempre, para visitá-los.
Tenho adorado a minha estadia em Castelo Branco. Não só desfrutei muito da qualidade de vida por aqui, como aprendi muitas coisas bonitas, interessantes e importantes e ainda por cima, conheci pessoas fantásticas, que se me tornaram queridas num abrir e fechar de olhos e que me fizeram sentir completa e literalmente em casa, numa cidade desconhecida, numa terra estranha. A tal ponto, que nem me a ir embora daqui! Mas, quase de certeza, irei. A lei da minha vida, a eterna espada sobre a minha felicidade, a onda que sempre vem derrubar o castelo de areia que com tanto carinho e empenho construímos com vista para o mar. Talvez seja o prelo a pagar... Ou talvez seja eu que procuro um consolo numa situação que não tem muito remédio...
Compreendi uma coisa: comecei a despedir-me. Aconteça o que acontecer - e a verdade é que, aprendi por experiência própria, a vida pode sempre dar um giro de 180º a qualquer momento - tenho de dar início a esse luto interior. É a única maneira saudável de prosseguir. Viverei com alegria e entusiasmo cada um dos momentos que me restam por aqui, como se fôssem os últimos, como vivo sempre todos os momentos. Mas cá dentro, o meu coração vai dizendo um «Até à vista...» já saudoso. Mais um...
Pergunto-me: terei, algum dia, um lugar onde deitar raízes? Ou será que o meu destiono é errar por esse mundo, de objectiva numa mão e esferográfica na outra?
Terça-feira, 9 de Setembro de 2008
Ainda no rescaldo do banco...
O meu primeiro amor foi a Cirurgia. Desde o 3º ano, em que comecei a fazer umas práticas por própria conta e risco entre cirurgiões a sério, internos de especialidade e alunos de 6º ano (sentindo-me uma formiguinha insignificante e ignorante), nunca mais a paixão me abandonou. O bicho infectante continua cá e este ano, depois de passar, novamente, pela Cirurgia, deliciei-me por última vez. Aprendi muito, diverti-me, cresci como pessoa, evoluí como médica. Ah... Que saudades do serviço e de todos os que lá trabalham... Ah... tenho que admitir, que saudades de MM...
Entretando, porque aprendemos um pouco mais sobre medicina e porque aprendemos a conhecer-nos melhor, tanto Carter como eu percebemos que a Medicina fazia mais o nosso jeito - nomeadamente, as urgências. De facto, também eu sinto o gosto pela adrenalina e quem me conhece sabe bem que não consigo estar quieta, que preciso de acção e de uma certa dose de tensão. Claro que uma coisa é isto e outra, bem diferente, é ter perfil para fazer verdadeiro trabalho de emergência, como por exemplo no INEM. Não nego a vontade, em absoluto. Preciso, apenas, de ganhar confiança e aprender mais. Um dia, quando me sentir mais preparada, tentarei.
Agora que estou de volta ao hospital, ao serviço de medicina interna, reencontrei uma parte de mim. Adoro o internamento, a consulta, a urgência, mesmo quando estou pedrada de sono, mal-humorada ou cheia de trabalho. Sim, a maior parte dos meus doentes é idoso, não mexe alguma parte do corpo, não sabe bem se está em 1908 ou 2008 (acreditem, que é verdade!) e costuma babar-se por um canto da boca e/ou urinar-se na fralda, mas apesar disso, continuam a ser seres humanos e estão frágeis. Alguns são, simplesmente, adoráveis! E do alto das suas longas idades, emanam uma aura de respeito que se sente. Muitos ainda são analfabetos e andaram descalços durante toda a sua infância. Conheceram um Portugal que só posso imaginar. Viveram a 2ª guerra mundial, a do Ultramar e as outras que se meteram pelo meio. Viram a chegada da televisão e a chegada do Homem à Lua. Foram cobaias dos primeiros antibióticos, quando podiam aceder-lhes. Viram os burros serem trocados por carros e as estradas irem chegando, ainda que lentamente, Para-Além-dos-Montes... Viveram a ditadura por completo, do início ao fim e vivem, agora, a democracia.
O que verei eu ao longo da minha vida?... Terminarei como eles?
Espero que, quando eu morrer, tenho 26 ou 106, me recordem como uma pessoa apaixonada, pela vida e pelo ser humano, que procurou viver intensamente, sempre, fiel aos seus objectivos e às suas crenças, sem vergonha de admitir quem é e o que quer, com coragem para enfrentar os desafios e as dificuldades, com medos, faltas e falhas, com desejos, sonhos e lutas. Pelo menos, é assim que tento ser. Mesmo que para alguns isto pareça uma mentira...
Quando eu morrer, quero um funeral à americana: com reunião de familiares e amigos para me recordarem em vida e não para chorarem a minha morte, com as minhas músicas favortias e muitas fotografias projectadas, de todas as etapas da minha existência, com os momentos de celebração de datas importantes e aqueles aparentemente insiginificantes, que ficaram ocasionalmente registados, mas que foram tão ou mais marcantes que os outros e que nunca mais foram esquecidos.
Repito uma música e um tema, que me são queridos, porque a vida está cheia de "ses" e as nossas possiblidades são infinitas...
Hold up... hold on... don't be scared
You'll never change what's been and gone
May your smile... Shine on... Don't be scared
Your destiny may keep you warm.
Cos all of the stars are fading away
Just try not to worry you'll see them some day
Take what you need and be on your way
And stop crying your heart out
Get up... Come on... why you scared
You'll never change what been and gone
Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008
ER - Serviço de Urgência
Só as luzes de emergência me iluminavam o caminho. Pelas janelas, coava-se aquela claridade pálida e tímida da noite. E no frio empedrado das escadas, as solas das minhas socas. Toc, toc, toc, toc... Um ruído rude e grosso que ecoava por todo o vão e emprestava um sopro de vida àquele lugar deserto, àquela hora da noite.
Enquanto subia, no passo cadenciado de quem já se habituou a subir e descer 5 andares todos os dias, a toda a hora, pensei no dia de trabalho que terminava.
Toc, toc, toc, toc... Continuava a ouvir as minhas socas. Só as minhas socas denunciavam vida naquelas escadas. Socas que poderiam ser holandesas, de madeira, mas que eram de plástico, brancas, furadas à frente como as socas das velhotas (simplesmente, horrorosas!!!) e compradas no bazar marroquino que havia ao pé da minha casa, no 5º ano. Sorri, como uma tolinha que fala para com os seus próprios botões.
Com a bata pendurada na ponta do dedo, caíndo pelas costas, passeando pelas escadas e corredores do hospital até chegar ao vestiário do meu serviço para trocar o "pijama" verde e as socas pela minha própria roupa, senti-me subitamente muito feliz. Absolutamente feliz, mesmo! Apesar do cansaço, não me apetecia ir embora. Apetecia-me ficar no banco e emprenhar-me de medicina até não mais aguentar. Não seria uma atitude saudável e por isso, vim-me embora.
Amo a minha profissão! Sei que ainda hei-de dizer que estou farta e cansada dela, mas serão apenas desabafos em momentos em que, realmente, me sentirei cansada. De resto, como dizia o poeta: « Amor é... (...) um solitário andar por entre a gente, nunca contentar-se de contente, (...) querer estar preso por vontade, (...) ter com quem nos mata lealdade (...).». Quando se ama de verdade, alguém ou alguma coisa, o sentimento transcende-nos e possui-nos. É isso que me acontece.
Olhei para o meu "pijama" verde, igual ao de todos os outros médicos que optam por usá-lo, igual ao dos personagens das séries televisivas sobre médicos (nomeadamente, "ER - Serviço de Urgência") e senti um enorme orgulho. Conquistei o direito a circular com ele para poder exercer a minha profissão com muito esforço e sacrifícios de muitas espécies. Chorei muitas lágrimas, sangrei o meu coração muitas vezes, mas... oh, sim! Valeu muito a pena! Fazermos aquilo de que gostamos e agirmos de acordo com o que acreditamos nesta vida, não tem preço!
Ainda me lembro do Carter, verdinho como eu, quando começou o seu internato. Desajeitado, tímido, determinado, cheio de força, levou broncas, teve medos, cometeu erros, aturou chefes... E a sua evolução como médico ao longo da série? Magnífica!! A diferença na atitude é notável e admirável! Por isso aquela série é tão fantástica! Aborda os seus personagens por inteiro, na sua dimensão profissional e na pessoal.
Agora, é a minha vez! Pensei nestes últimos 11 anos da minha vida, em toda a sua evolução e por vezes, ainda não consigo acreditar que sou médica, que concretizei o meu sonho e que estou, apenas, a começar a desfrutar deste prazer que é lidar com a vida humana de perto.
Pelos corredores, escadas e enfermarias, sinto-me em casa, não conheço outro local que me seja mais acolhedor ou familiar. Pertenço ali! E penso...
É verdade que a Medicina me roubou e ainda me rouba muito tempo, mas também é verdade que me dá uma experiência e uma compreensão da vida que, de outra forma, não teria e que considero preciosa para qualquer pessoa e fundamental para a minha maneira de ser feliz. Não concebo a minha vida sem ela!
Saí do hospital com um enorme sorriso.
PS: Perdoem-me o cliché da vídeo, mas não resisti... Fazia-me todo o sentido!
Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008
Não pirilamparás!
Deviam levar mais a sério a risoterapia!
Deviam, também, criar um Prémio Nobel para o sentido de humor.
PS: Sem o teu contributo, Tavares, este post jamais seria possível! ;)
Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008
Scream

Oh...
Oh, I'm so angry...
Oh...
Oh, I'm so dead angry...
I just want to scream!
So, I sent some men to fight and one came back at dead of night, said he'd seen my enemy, said he looked just like me.
All of these lines across my face,
Tell you the story of who I am.
So many stories of where I've been
And how I got to where I am,
But these stories don't mean anything,
When you've got no one to tell them to.
You see, the smile that's on my mouth,
It's hiding the words that don't come out.
So, I sent some men to fight and one came back at dead of night, said he'd seen my enemy, said he looked just like me.
And once again, I cannot sleep,
Walk out the door and up the street:
My foot, one in front of the other,
(or one behind the other?),
Remembering rights that I did wrong.
So here I go...
I sent some men to fight and one came back at dead of night, said he'd seen my enemy, said he looked just like me.
So here I go...
I'm screamming at the top of my voice!!
And my reflection troubles me...
Maybe someday we will meet,
Maybe, someday, talk and not just speak...
Maybe...
Domingo, 17 de Agosto de 2008
Utopia
«Utopia tem como significado mais comum a idéia de civilização ideal, imaginária, fantástica. Pode referir-se a uma cidade ou a um mundo, sendo possível tanto no futuro, quanto no presente, porém em um paralelo. A palavra foi cunhada a partir dos radicais gregos οὐ, "não" e τόπος, "lugar", portanto, o "não-lugar" ou "lugar que não existe".
Utopia é um termo inventado por Thomas More que serviu de título a uma de suas obras escritas em latim por volta de 1516. Segundo a versão de vários historiadores, More se fascinou pelas narrações extraordinárias de Américo Vespucio sobre a recém avistada ilha de Fernando de Noronha, em 1503. More decidiu então escrever sobre um lugar novo e puro onde existiria uma sociedade perfeita.
O "utopismo" consiste na idéia de idealizar não apenas um lugar, mas uma vida, um futuro, ou qualquer outro tipo de coisa, numa visão fantasiosa e normalmente contrária ao mundo real. O utopismo é um modo não só absurdamente otimista, mas também irreal de ver as coisas do jeito que gostaríamos que elas fossem.», in Wikipédia.
«Quando me chamam de utópico, julgam que me insultam, mas na verdade, elogiam-me!», Fernando Nobre.
«You may say I'm a dreamer, but I'm not the only one...», John Lennon.
Sábado, 16 de Agosto de 2008
Retalhos costurados


Sob as fracas luzes cor-de-laranja dos candeeiros, vou subindo a rua em direcção à minha casa. O silêncio da noite deixa escutar, claramente, o ruído dos meus saltos altos no alcatrão da estrada: tac-tac-tac-tac, como se os meus pés levassem um amplificador incorporado.
De súbito, sopra uma brisa leve que me traz o cheiro caracterísitco do mato seco. Estas últimas noites têm estado mais frescas; o cheiro não é tão intenso como nas outras noites quentes de verão.
Adoro o bairro onde vivo! Parece uma aldeia. Esqueço-me que estou na cidade!
Cá vou eu, rua acima, com o "muro das lamentações" do meu lado esquerdo, separando-me do edifício em ruínas da velha estação ferroviária. Ainda é bonito! Imagino como seria em tempos. Imagino as malas de cartão, os chapéus de feltro dos cavalheiros, as sombrinhas das senhoras, os garotos imundos que vendiam o que dava jeito, os lenços brancos agitados no ar.
Abano a cabeça num arrepio de frio que me acometeu sem prévio aviso, como que querendo afastar de mim tais pensamentos. Concentro-me na história que acabei de ouvir. Mais uma vida que conheci na intimidade; mais uma lição a ser aprendida.
A Beira que Namora descrevia nas suas crónicas de "Retalhos da vida de um médico" mudou bastante, mas eu suspeito que haja coisas que ainda se mantenham. De qualquer forma, pergunto-me, que pensaria ele se chegasse aqui agora?
Tenho ainda tão pouco tempo de prática médica e também eu já vou contabilizando as minhas historietas mais ou menos caricatas sobre estas gentes tão castiças. Sim, por vezes falo delas aqui. Sim, poderia contar algumas mais. Poderia falar da velhota que vive só, não tem ninguém no mundo e como companheiras, restam-lhe uma demência senil, uma perna ferida e infectada com centenas de larvas de moscas e meia-dúzia de vizinhas caridosas que lhe dão um prato de comida de quando em quando - quando a ela lhe apetece aceitar. Seria um caso interessante. Mas esta noite, preocupam-me mais outro tipo de maleitas: as psicológicas - aquelas que nem sempre se notam e, por vezes, trazem tanto ou mais sofrimento que as do corpo.
Para fora, para os outros, as pessoas esforçam-se por manter aparências. Para dentro, a sós consigo mesmas, as pessoas sofrem carências terríveis. E que cura há para esses males? Que podemos nós fazer para ajudar? Quantas e quantas vezes não chegamos à conclusão desconsoladora de que há que esperar que a vida aconteça (sem que isso signifique que fiquemos estagnados)? E enquanto esperamos, perguntamo-nos vezes sem conta: «Ó vida, por que não aconteces?».
A solidão é terrível!! É o caruncho da nossa alma! Consome-nos por dentro, fragiliza-nos até que nos derruba. É triste. É este vazio infinito que se abre na alma e que nada fecha ou sacia. Falta-nos um pedaço. Entendi bem o que me contaram, mas não pude receitar nada, pois não há comprimidos ou técnicas cirúrgicas que valham para a cura. Bem quero remediar tudo o que encontro de mal, mas não sou capaz. Escutei, pelo menos.
Escutei esta, como escutei outras histórias. Aos poucos, vou conhecendo estes beirões, por dentro e por fora. Gente rija! Teimosos... Mais fechados... Generosos, amigos, carentes, melancólicos.
Cheguei a casa. Inspiro uma última vez este cheiro magnífico de que tanto gosto, antes de entrar. Penso, novamente, em Namora e nos seus retalhos que ouso costurar aos meus. Apetece-me continuar a contar histórias. Talvez seja essa a minha missão.
Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008
Domingo, 3 de Agosto de 2008
A menina da minha infância
Vi-te sair pela porta da frente da velha casa do moinho e espequei: estavas linda!
Mais tarde, neste dia bonito, à porta da igreja, já estavas casada quando voltei a olhar para ti: dentro do vestido, a menininha reconchuda e ternurenta, com dois tótós fartos a cada lado da cabeça e rosto de anjo. Ainda te recordo assim... Ainda me recordo assim... E depois, como que por magia naquele instante, esfumou-se a menina da minha infância, ficou a mulher.
Eis que, a meio da festa, descubro um pedacinho dessa menina da minha infância! Afinal, ela continua aí! Está escondida dos olhares indiscretos. Schiu... Não direi nada a ninguém - até ao fim da festa...
Por fim, despeço-me. Foi um dia llongo e muito emotivo. Os "tios" mal conseguiram conter-se durante a cerimónia. A "avó emprestada" ficou mesmo ao meu lado, na sua cadeirinha. Dei-lhe a mão e sorri-lhe, apesar de ter consciência que ela não sabia bem onde estava, nem quem eu era. Fui surpreendida pelo seu sorriso terno, com um vislumbre de brilho no seu olhar (terei imaginado?!) e o apertar da minha mão que me devolveu como se me quisesse dizer «Ainda estou aqui.». Aí, chorei. Passou tanto tempo...
Fizemo-nos mulheres lado a lado, umas vezes mais próximas, outras mais distantes. Existes na minha memória desde sempre. Espero poder continuar a partilhar contigo as alegrias e as tristezas, a saúde e a doença, até que a morte nos separe.
Muitas felicidades, menininha!
Sábado, 2 de Agosto de 2008
Aperitivo para o fim-de-semana
Primeiro fim-de-semana do mês de Agosto.
Há muito tempo que não andava pelo Parque das Nações à noite. Continua fenomenal!
C. e eu fomos jantar. Não estamos juntas há muitas semanas. Quase parece que ainda estou em Cádiz. Não fôsse pelo facto de podermos falar pelo telefone com mais facilidade e estariamos tão distantes como quando eu andava por lá.
Temos algo para celebrar. A vida de C. pode mudar muito e dentro em breve. Novamente, o norte entrando pela minha vida, sem aviso nem pudor. Creio que C. tem a oprtunidade da sua vida à espera de ser agarrada. Adivinho-lhe o princípio de uma aventura sem fim. Observo-a, enternecida, enquanto come. Tem um brilho novo no olhar. Sinto-lhe a força de carácter e o poder dos sonhos. Quase rebento de tanto orgulho! Crescemos. Já não somos menina, virámos mulheres... E na minha frente, tenho uma jovem mulher bonita, forte, corajosa, determinada, trabalhadora e poderosa. Tenho alguém diferente!
Diferente por fora, sim. Todos o notam; ela sempre o soube. O seu defeito físico está lá e não se esconde. Mas, sobretudo, diferente por dentro. Essa diferença que nem todos conseguem ver e, pior ainda, nem todos os que vêem conseguem apreciar, é aquilo que ela tem de mais bonito!
Bebo as suas palavras sofregamente. Em simultâneo, revejo-me durante esta semana que passou: pendurada ao telefone com C., contando as novidades ou dizendo asneiras, em frente ao PC vasculhando na net as casas de que ela gostava, fazendo o jantar, fixando o tecto e comendo uma bolacha de chocolate com as pernas apoiadas na parede, estendendo a roupa, fazendo xixi, desafiando-a a vir a CB tomar café comigo depois do jantar e a voltar a Lisboa no primeiro comboio da manhã... Coisas que só se fazem com bons amigos...
Bebo as suas palavras com alegria e orgulho de ser sua amiga. Que pessoa extraordinária é C.!!! Não me surpreenderei se ela fôr a razão do meu regresso a Estocolmo - tanto que desejei lá voltar, na hora da despedida... - daqui a uns anos, como espectadora na Stockholm Concert Hall.
O jantar foi simples, mas divertido e assinalado com um brinde ao futuro. Depois, para fazer a digestão e enquanto não chegava a hora do pézinho de salsa na Barrio Latino (o local de outros crimes) demos um passeio e continuámos a pôr a conversa em dia.
Já ambas tínhamos ouvido falar, mas nenhuma de nós se lembrou. Nessa noite começava o Festival dos Oceanos. De forma que fomos agradavelmente surpreendidas por um magnífico fogo-de-artifício. Corremos para o ver mais de perto e valeu muito a pena a maratona. Adoro espectáculos de fogo-de-artifício!!!
Vimos tudo tão de perto quanto possível. O cheiro a queimado, o ar denso, a chuva de fagulhas mesmo por cima da nossa cabeça. Recordou-me uma outra noite de verão, já muito longínqua no tempo, em que assisti também a um fogo assim de perto, encavalitada nas rochas de uma falésia, também na companhia de uma amiga muito querida, lá para as bandas da Ericeira. A amiga que conheço há mais tempo, aquela a cujo casamento irei daqui a umas horas...
Domingo, 27 de Julho de 2008
Porno maduro
«PORNO MADURO - Uma sociedade japonesa cada vez mais envelhecida assiste a um boom de pornografia para idosos e com idosos.
(...) Segundo um relatório de Março da OMS, um em cada quatro casais japonese não teve relações sexuais no ano anterior, enquanto 37% dos casais de 50 anos já não as tem de todo - números atribuídos, em parte, ao stresse. Ao mesmo tempo, o país assite a um aumento da procura de pornografia (...) e um dos géneros mais procurados é a "pornografia da terceira idade". As proezas de Tokuda*, apresentado como um cavalheiro delicado que ensina mulhres de diferentes idades nas artes eróticas, têm sido uma mina de ouro para o estúdio (...). "A indústria de vídeo para adultos é muito competitiva. Quisemos fazer algo de novo.", justifica Kayako Limura, o representante da Gluest. Já Tokuda tem uma abordagem directa sobre o seu sucesso entre os idosos. "Não se identificam com os dramas na escola. É mais fácil relacionarem-se com filmes do género: homens-mais-velhos-e-as-suas-noras.". (...) e não são só homens a mostrar os seus dotes - quase um terço das películas apresenta mulheres "maduras".», por Michiko Toyama.
De facto, gostos não se discutem; apreciam-se! Não critico em nada a sexualidade na terceira idade, muito pelo contrário! Quanto a mim, a juventude está no espírito e não no corpo.
Achei este artigo interessantíssimo, pois reflecte bem a evolução da sociedade japonesa e mostra-nos, de relance, como pode ser a nossa em breve.
Quanto ao tema da pornografia... Bem, recorda-me o Red Light District...
«Quero ver as mãos de todos em cima da mesa!! Atenção, isto não é uma brincadeira!»

Sábado, 26 de Julho de 2008
London curiosities (part III)
No Royal Albert Hall, vivi um dos momentos altos da viagem. O concerto encheu o grandioso e belo salão de música. O coro, com cerca de 3000 pessoas vindas de vários países, preenchia cerca de 2/3 da capacidade total do edifício. A orquestra, ao centro, enchia toda a atmosfera com a música bonita, que nos tocava nas profundezas da alma, acompanhada pelo poderio do coro. Foi um momento mágico!
Segunda-feira, 21 de Julho de 2008
Meio caminho andado

À medida que caminhamos, encontramos outros caminhos que se cruzam com o nosso, que se fundem como nosso ou que, simplesmente, decorerm paralelamente sem nunca se interceptarem. Porto
... Essa estranha cidade...
Que me atrai e me repele...
Mágica...
Independente, livre, com carácter... Que me surpreende e me prende...
Caprichosa, elitista, brugesa, machista, própria... pode ser amante fogosa ou madrasta cruel, fria e impiedosa...
Intelectual, patriótica, leal, franca, humilde, hospitaleira, honrosa...
Bruta e forte, suave e delicada, aromática, perfumada, aveludada, enebriante...
Romântica, trágica, brava, dura, eternamente Invicta nas convicções, na História e nas agruras da vida...
Envolvente, atordoante... Assim é a cidade do Porto para mim...
Esse Porto de contrastes fortes e desconcertantes, simplesmente apaixonantes, que esta lisboeta aprendeu e aprende a descobrir e a amar.
É sempre um prazer rever-te!
Quinta-feira, 17 de Julho de 2008
Desabafos de quem tira a carta
Não me apetece estudar! Ando com preguiça! Já tive de estudar tanto... Não me apetece ter de estudar o código e por isso, tenho adiado a coisa.
Hoje, à 3ª aula de condução, o meu entusiasmo levou um balde de água fria: «Ontem não fôste à aula, RD. Quando fazes o exame de código?».
JP acha que não devo marcar mais aulas de condução sem ter o exame de código e sei que tem razão. Mas que tristeza a minha... Nos últimos dias, a melhor parte do meu dia tem sido aquela horita das 8 às 9h da manhã, em que passeio o automóvel pelas rotundas e vias urbanas de Castelo Branco. Estou viciada na condução! E quase não sei nada! Mas JP vai-me empurrando para a frente: primeiro o volante, depois o acelerador e hoje, o travão e duas mudanças, lá andei eu com o carro e a sua permanente supervisão, feliz da vida. Ontem, treinámos o giro rápido e total do volante, de um lado para o outro. Parecia treino de rally! lolol Adorei!
Bom, pelo menos este entusiasmo pela prática da condução tem um lado positivo: vou pôr-me a estudar o código para me despachar logo do exame!
Caramba! Mal posso esperar por ter a carta e passear por aí, no meu calhambeque. Ai! Caio no mundo e desapareço!
Será que dariam pela minha falta...?
Quarta-feira, 16 de Julho de 2008
Relatório
JP, o instrutor, mandou-me entrar, sentar e acomodar-me. Falou-me do ajustamento do banco e dos espelhos, do significado de cada bonequinho que aparecia no painel de instrumentos e disse-me, por fim: «Hoje, vais trabalhar, apenas, o volante. Eu trato das mudanças e dos pedais. Podes ligar o carro.».
E lá fui eu, girando para a esquerda e para a direita, tirando o automóvel do lugar, descendo a esburacada Av 1º de Maio (qual cenário das obras de Santa Engrácia!), fazendo as 1001 rotundas que tornam Castelo Branco na franca rival de Viseu pelo título de "Cidade das rotundas" e seguindo cada uma das indicações que JP me dava.
No fim, a sua voz afável, pedagógica e incrivelmente tranquila sobressaltou o meu pobre coração: «Para primeira vez, não está nada mal!».
...
Quase ía tendo um colapso de felicidade. O emocionalmente impenetrável JP tinha manifestado uma opinião positiva a meu respeito! Sim, eu tinha desfrutado imenso daquela primeira lição. Tinha feito deslizar o volante nas minhas mãos com uma grande dose de descontração e com imenso prazer e uma alegria crescente, sentindo que o fazia bem. Mas... seria assim, de facto? Ele tinha-o confirmado! E eu, contentíssima, tive de fazer um enorme esforço para me conter, para não me pendurar no seu pescoço e lhe desferir no rosto um pelotão de beijos.
...
Não ficava bem...
Adoro aquele instrutor! Inspira-me uma confiança impressionante, que muitas vezes comparo àquela que o Christian me deu.
Conclusão: creio que vou adorar conduzir!!
Cuidar do fim
É sabido por todos que a vida nem sempre corre como planeamos. Esta é mais uma evidência disso.
Voltei de viagem, durante a manhã, depois de uma directa e com o corpo esgotado, mas não tive direito a descanso. Morreu uma prima minha e fui ao seu funeral.
Chamava-se Laura - um nome comúm na família, que gosta de preservar as suas tradições, que historicamente se viu obrigada a isso e assim tem sobrevivvido. Já era velhota e morreu de doença prolongada: insuficiência renal crónica. «Chocar-te-ás, se a vires.», preveniu-me a minha mãe. «Está muito amarela, encarquilhada e mirradinha, lembrando um papiro velho.». De facto, assim era.
Na pequena e bonita capela onde decorreu o seu funeral, em Setúbal, o seu caixão aberto deixava ver um corpo frágil e pequenino, muito enrugado e amarelado, repousando com tranquilidade sobre mantos de um branco imaculado, com rendas e de aparência fôfa. Não a olhei de frente, nem sequer a observei com atenção, muito menos me aproximei dela - não senti necessidade disso. Segui o conselho antigo dos meus pais e prefeir recordá-la em vida - eles disseram-me, creio eu que com muita razão, que ao observarmos os mortos, a sua imagem nos fica gravada e acabamos por lembrá-los muito mais nesse instante de tristeza e dor, do que nos outros momentos. Alguns amigos meus discordam de todo, eu sei, mas por minha decisão, todos os funerais da minha família se faríam de caixão fechado.
Dentro do que é possível numa ocasião destas, a cerimónia foi muito bonita. Sendo ela uma professora de música, o padre teve o acompanhamento de uma harpa e de uma flauta e todo o ambiente se tornou místico. Não sendo eu nada religiosa, mas profundamente espiritual, dissequei aqueles instantes com outra perspectiva.
Percebi o quanto um momento pode ser incrivelmente belo, estar cheio de paz e, simultaneamente, ser profundamente doloroso e triste. Percebi que os padres ou quaisquer outras pessoas que tentem dar algum género de consolo nestas ocasiões, têm uma tarefa genuinamente ingrata. Poucas ou nenhumas palavras consolam. Aiás, pergunto eu, palavras para quê? Talvez baste estarmos lá e usarmos outro tipo de linguagem: a gestual. Carinho, olhares, gestos, simbolismos... Provavelmente, isso aconchega muito mais. Por outro lado, renego a minha cultura! Fora com os trajes negros e a tristeza soturna!!! Venha o branco, cor da paz e da harmonia, cor que a mim me transmite uma sensação de infinito, de misticismo e de espiritualismo!! Venha a celebração de uma vida e não de um fim! É certo que a morte traz um fim e uma separação, mas não necessariamente um fim absoluto.
É certo que nem todos crêem numa vida para além da morte e, naturalmente, não é isso que exigo. Reclamo, antes, que a nossa atenção recaia sobre os aspectos positivos. A morte é mais um acontecimento da vida e significa que houve vida e que houve coisas boas e bonitas e é nisso que devemos pensar. E quem tem a felicidade de ser espiritual e acreditar em algo que nos transcende, quem acredita que a morte não é o fim total e absoluto do nosso ser, então, a sua visão do cosmos e amplia-se e a própria existência adquire novas cores e significados. Talvez, digo, talvez, acreditar em algo assim seja uma forma de sobreviver. Ou, talvez, seja uma forma de inteligência, um sexto sentido que apreende uma realidade para além daquela que os nossos pobres cinco sentidos nos têm dado a conhecer.
...
Cumprimentei os meus quatro primos, seus filhos: João, Zé, Paula e Joaquim, do mais velho para o mais novo. Todos diferentes, todos reagindo à sua maneira.
João, o mais belo homem da família, o mais belo homem que conheci pessoalmente, estava desfigurado pela dor e controlava-se com dificuldade. Desnorteado, chorava amiúde, procurava consolo nos braços do irmão caçula, Joaquim. Contra as eventuais expectativas (visto que era o mais novo) ou talvez não, este estava muito sereno e seguro. Vertia as suas lágrimas num silêncio conformado. Vê-los abraçados foi comovente até me faltar o fôlego, se me porem os pêlos em pé e ter de desviar o olhar, num arrepio, por não aguentar vê-los assim. O Zé, chorava quase friamente, não porque não sentisse, mas porque se via visivelmente anestesiado, ainda sem ter aterrado e interiorizado completamente a nova realidade, ziguezagueava meio sózinho pela capela. Por fim, a menina da família, a Paulinha, mulher de armas, triste, cansada, mas também conformada e, até, aliviada. Dito assim, parece cruel e insensível, mas não. A doença arrastou-se durante demasiado tempo, com um grande sofrimento para ambas as partes: para a minha prima e para a família. Faz-nos pensar... prolongar a vida... A que preço?
O padre esforçou-se para dar o consolo, mas a mim, as suas palavras soavam-me vagas e sem sentido. Seria por eu não confessar a sua fé? Provavelmente... Ou, talvez, porque a minha teia filosófica de vida virava e revirava cada um dos seus argumentos e os envolvia e revolvia nas suas malhas desconfiadas e inquisidoras, sempre em busca de uma verdade segura e firme, mas simultaneamente flexível e complacente. Definitivamente, a minha filosofia não batia com a sua e apetecia-me gritar. Apetecia-me abraçar aqueles quatro primos e fazer do meu coração uma bola de cristal para que eles pudessem ver precisamente aquilo que eu sentia e pensava e que as minhas palavras eram mais que insuficientes para expressar.
Tive de me limitar a um «Lamento.» e a um abraço, mas em troca, do Joaquim e da Paula, recebi um ténue sorriso. Por vezes, basta isso.
No cemitério, o caixão desceu à terra com os quatro irmãos abraçados sob um sol escaldante, que a todos nos pelava e um vento manso que sacudiu os nossos cabelos nesse preciso momento, qual sopro místico enviado especialmente desde a outra dimensão. Uma imagem que jamais esquecerei! Seria Deus? Seria Laura? E, novamente, o João nos braços do Joaquim, o Zé desnorteado e a Paula, firme e pesarosa. Comovente! Pleno de significado!
Nesse momento, recordei-a, a prima Laura. Certa tarde de inverno, com a paciência dos idosos, estava eu sentada ao piano de sua casa ensaiando meia-dúzia de notas descoordenadas, quando ela veio pôr-se do meu lado esquerdo, dando-me algumas instruções sobre como colocar e mover os dedos sobre o teclado. E eu, já crescidinha, estava feliz como uma criança perante o instrumento amado, experimentando as dificuldades de quem aprende e tentando imaginar a figura terna e grande da minha bisavó na quinta, com o seu Steinway de pés de cristal, encantando os convidados, como rezam as histórias de quem a conheceu, com a magia das suas interpretações.
Vi a terra ser lançada sobre o caixão e a recordação desvaneceu-se. Disse-lhe um adeus que sei que é temporário, pois acredito que nos encontraremos algures nessa outra dimensão onde paira o nosso espírito. Fiquei por ali, não quis pensar em mais nada, pois o coração já se me apertava com pensamentos e receios indesejados que quis sacudir.
Para espantar as tristezas, fui tomar uns finos e comer uns caracóis com a mamã, celebrando a vida e a nossa sorte em nos termos. A presença das pessoas que amamos é uma benção só verdadeiramente apreciada por quem, de alguma forma, já sentiu a ausênia desses entes queridos. Logo, o ambiente se desanuviou. A morte é, sempre, uma ocasião de tristeza, mas deve ser encarada com a consicência e a leveza da inevitabilidade quando sucede a pessoas idosas e com doenças terminais, como era o caso da nossa prima.
...
Hoje, as consultas da manhã terminaram mais cedo para darem lugar a duas palestras. A segunda, sobre a doença do refluxo gastroe-esofágico, valeu pela informação. A primeira, foi um tesouro. Entitulava-se "Cuidar do fim" e falava dos cuidados médicos que se prestam no fim da vida. Achei-a não só interessante, como muito importante e tocou-me profundamente a alma, pois salientou situações e atitudes que sempre me preocuparam.
O Dr. Eduardo falou da medicina no fim da vida e comparou a que se praticava antigamente, com a que se pratica actualmente. Será uma melhor que a outra? Não necessariamente. Ambas têm os seus pontos positivos e os seus pontos negativos. A medicina evoluíu porque nós evoluímos. Nós, quem? Pois os médicos e os próprios doentes.
Depois de ouvi-lo, senti-me feliz por ser como sou e com mais determinação para demonstrar os meus sentimentos e as minhas posições perante as questões de vida e de morte. Tirando a questão da eutanásia da equação, que para o caso não foi chamada, sou defensora de uma morte com qualidade e isso implica, por parte dos médicos, uma atitude mais comunicativa e mais crítica.
Antigamente, morria-se em casa. Hoje, morre-se num hospital. As pessoas criaram a ideia, ilusória, de que se morre melhor entre paredes brancas, instrumentos de metal e plástico e dúzias de medicamentos. As pessoas esquecem-se que a vida prolongada a qualquer preço pode não ter qualidade nenhuma, sequer sentido e, consequentemente, não ser uma opção desejável. Quem decide isso? Pois, claro está, o próprio paciente. Por isso é tão importante que cada um de nós pense o que deseja para si e é, também, tão importante, que o médico comunique mais com o próprio paciente e a sua família.
Com o avançar das meios e dos procedimentos, somos capazes de prolongar a vida quase indefenidamente. Mas eu e alguns outros perguntamos: valerá a pena entupirmos alguém de medicamentos e intervenções, a partir de determinada altura, quando conhecemos o resultado?
É preciso cuidado com as palavras, para não sermos mal interpretados. Não faço a apologia da morte. Não defendo a eutanásia (já disse que não é para aqui chamada, neste momento), nem digo que as pessoas não devam ter esperanças. Apenas advirto que há que ser realista.
A Paula sentiu-se aliviada quando a mãe morreu. Sem dúvida que estava profundamente triste, sem dúvida que amava a mãe e que sentia grande saudade dela. Não questiono o seu amor de filha! Entendo-a. Ver a mãe definhar e sofrer não é melhor do que vê-la morrer.
Em muitas pessoas, médicos ou não, ainda persiste aquela ideia de que o mais importante é fazer prevalecer a vida sobre a morte, a todo o custo. Mas será isso, de facto, o que mais importa? Quantos de nós já se perguntaram como gostariam de morrer? Pois, perguntam-se agora! Prefeririam morrer num quarto que vos é estranho, sózinhos ou rodeados de pessoas que vos são estranhas, atolados de medicamentos e instrumentos que sabem que não vos podem salvar a vida? Ou prefeririam morrer num ambiente tranquilo e familiar, com paz, junto daqueles que vos são mais queridos?
A morte dá, sempre, medo. Quando chega o momento, ninguém lhe é indiferente. É como abrir uma porta para uma sala desconhecida: estamos na expectativa do que vamos encontrar e não conseguimos evitar a ansiedade.
Tanto o paciente, como os seus familiares, quando confrontados com a iminência da morte, devem vivenciar um determinado processo psicológico conhecido como luto. Na verdade, o luto faz-se ou deveria fazer-se para muitas situações na vida, algumas dramáticas como sendo a morte de um ente querido, outras, banais como o fim de determinada etapa da vida. Tenhamos ou não consciência disso, todos devemos fazê-lo, para resolvermos as emoções dentro de nós e encontrarmos a paz interior, o equilíbrio emocional que nos permita seguir em frente com segurança e firmeza.
Gostei desta explicação das fases do luto...
1ª - Fase da negação
Nesta etapa os familiares não acreditam (ou melhor, não podem acreditar) na gravidade do diagnóstico e do reservado prognóstico do paciente. Aparece com frequência o discurso da possibilidade de ter havido um erro no seu exame ou de troca do resultado. O primeiro contacto com a doença grave, em geral, tem como características: o choque inicial frente
ao diagnóstico e o início de uma busca frenética, que logo se torna uma autêntica peregrinação de
especialista em especialista, na expectativa de mudança do diagnóstico.
2ª - Fase da raiva
Nesta fase é esperado um questionamento da vontade divina e da capacidade da equipa, uma vez que a melhora está demorada. O familiar passa a experimentar outros sentimentos, com forte carga de ambivalência afectiva, podendo tornar-se hostil e agressivo ao meio que o rodeia e mesmo em relação a Deus. Neste momento penoso, o sentimento predominante
é o de impotência, alternando-se com momentos de revolta e franca hostilidade. São comuns expressões do tipo: “Por que tenho que passar por isto?” ou ainda: “Tantas pessoas más estão vivas, porquê justo ele(a) tem que estar doente?”. O lamento, por vezes, pode ocultar um sentimento de culpa, além do pesar: “O que fiz para merecer isso?”. Em relação à equipa, são esperadas reacções de desconfiança e de agressividade por parte do familiar, que nesse momento se questiona se deveria ter, realmente, permitido os tratamentos, se os tratamentos não
acabaram antecipando a morte do familiar e coloca em dúvida a própria capacidade técnica da equipa.
3ª - Fase mística
São características dessa fase: a busca de métodos mágicos de cura, apelos dramáticos e a celebração de pactos ou promessas. Neste momento, o familiar estabelece acordos, reais ou imaginários, com figuras que representam, no seu sistema de crenças e valores, o ideal de omnipotência e supremacia, e que, na sua fantasia, têm poder sobre o bem e o mal, sobre a vida e a morte. Essas figuras aparecem, frequentemente, encarnadas em certos profissionais da equipa, sobretudo da especialidade médica. No plano sobrenatural, o poder absoluto é investido em Deus ou nos santos de devoção. Nesse momento, os familiares voltam-se para uma introspecção religiosa, que lhes permite obter certo alívio e tranquilidade, que são ingredientes necessários
para enfrentar a crise que se instalou no quotidiano familiar. É um mecanismo de luta, esperança de cura e prolongamento da vida do paciente.
4ª - Fase de depressão
Uma vez que percebem que o quadro clínico do paciente não apresenta melhoras ou que caminha, inexoravelmente, para uma situação irreversível, o familiar adquire a percepção da perda iminente. Neste momento, a angústia e a introspecção aumentam,
acompanhando progressivamente o deterioramento do estado do paciente. A dor psíquica é imensa, pois começa a se esboçar o contacto nítido com o início do fim. Sentimentos de culpa e insegurança, tristeza e pesar, retornam com maior intensidade. São características desta fase:
introspecção e isolamento, episódios de choro e profunda tristeza.
5ª - Fase de aceitação
Este é o estádio da quietude e do isolamento. A vontade de lutar cessa gradualmente e a necessidade de descanso é imensa. A aceitação da morte do familiar não significa perder a esperança de vida, mas não mais temer ou se angustiar intensamente ao entrar em contato com a perda inevitável. É a aprendizagem do desinvestimento afetivo, necessário para que se
possa elaborar o desligamento e a separação que estão por vir. É um tempo precioso e ao mesmo tempo delicado da resignação, que, se bem elaborada, propicia
uma maior harmonia consigo mesmo. Neste momento é comum o “balanço” do que
foi realizado até aquele momento, e a sensação reconfortante de “missão cumprida”, isto é, de que “foi feito tudo o que podia ser feito” e de que “o melhor para ele(a) talvez seja mesmo o descanso eterno”.
(in: "Intervenção junto à família do paciente com alto risco de morte", Medicina (Ribeirão Preto), 2005; 38 (1): 63-68; Simpósio:MORTE: VALORES E DIMENSÕES, Capítulo X.)
Um médico não trata só das maleiras do corpo; também alivia as dores da alma! A sua precoupação deve ser o doente e não a doença!
Por vezes, o próprio médico não sabe bem como lidar com as situações. Afinal, tambem é humano. Encarar a morte do seu paciente como um fracasso de seu trabalho, recear envolver-se emocionalmente, vivenciar situações daquele tipo com demasiada frequênica, entre outras coisas, são tudo receios legítimos e naturais que o médico enfrenta.
Como ser humano sensível e como médica, ponho-me do lado do Dr Eduardo e reclamo a atenção de todas as pessoas para a hora da morte. É preciso desenvolver uma comunicação eficaz: é preciso que os médicos falem mais e melhor e que as pessoas queiram ouvir e entender a realidade.
Não adianta fugir. Todos morreremos um dia! Humanizemos a nossa morte!!
«A morte faz parte da vida. Quando uma criança nasce, a única coisa que sabemos sobre ela, sem sombra de dúvida, é que morrerá um dia.», Edle Astrup Hubay Cebrian
«Se acreditarmos que a vida humana contém os pressupostos para a perfeição, se acreditarmos que o nascimento não consuma um processo da natureza, mas o inicia e que a morte não interrompe o ciclo das transformações, mas reanima-o, a nossa visão do mundo amplia-se!», Agustina Bessa-Luís
Sábado, 12 de Julho de 2008
From Amsterdam, with love and love
(...) Dirigimo-nos directamente ao Red Light District, delimitado por luzes vermelhas de néon nas arestas dos prédios e nas janelas. A noite estava agradabilíssima e havia muita gente nas ruas. À medida que nos aproximávamos da área em questão, o movimento intensificava-se e a densidade populacional por m2, também. O Red Light District acaba por ser uma atracção turística como outra qualquer, na cidade de Amesterdão. A população é, maioritariamente, masculina, mas também se encontram muitas mulheres. Em geral, vêem-se grupos.
As fotografias e os filmes estão proibidos, mas há, sempre, uma forma de contornar as regras e foi o que fizemos, já que o Pino queria uma souvenir. Em abono da verdade, eu também. Afinal, já tinha filmado e fotografado a Green House! Claro que compreendo os motivos que levaram à imposição dessa roibição, mas por outro lado, a exposição pública tão nua e crua daquela realdiade torna-a parte integrante da cidade como algo público, como se fôsse mais um monumento e portanto, acessível às objectivas indiscretas dos turistas. Pelo menos, numa primeira análise pouco cuidadosa do tema, assim me parece. Tenho de reflectir sobre o assunto...
No centro de Amestersão, há ruas de várias larguras, muitas fechadas ao trânsito. No Red Light District, também e aí, sim, até onde me apercebi, estavam todas fechadas.
Havia mulheres para todos os gostos: magras e gordas; louras e morenas; brancas, negras e asiáticas; com look infantil, atrevido, etc. Algumas, eram verdadeiramente bonitas; outras, realmente feias. Quase todas tinham um sorriso na cara, algumas pareciam quase felizes e apenas uma ou outra denotava contrariedade em estar ali e eu surpreendi-me com a capacidade daquelas mulheres para adulterarem as saus expressões. Olhava-as nos olhos, tentando compreendê-as, apreciava-lhes o corpo e sentia-me perdida, sem saber o que sentir, nem como encará-las. Não estava ali para criticá-las, apenas para observar. Talvez isso, por si só, lhes afecte mais do que qualquer crítica falada, não sei. Sei, apenas, que não quis magoar ninguém e que posso tê-lo feito, mas que não podia de deixar ir ali e ver aquilo com os meus próprios olhos - aquilo de que toda a getne que ía a Amesterdão falava. Precisava de sentir o impacto daquela realidade 8que se me apresentava decadente), não só porque todos falavamd ela, mas também porque queria compreendê-a e enquadrá-la na sociedade em questão e no mundo actual.
As mulheres exibiam-se em lingerie, sentadas ou em pé, paradas ou balançando o corpo ao ritmo da música que tinham escolhido para ambiente. Algumas, mais afoitas, chamavam a atenção directamente de alguns dos homens que passavam - quem sabe se os que julgavam mais atraentes; de certeza, aqueles que lhes pareciam mais susceptíveis de se tornarem clientes. Vendiam-se!! Não há melhor expressão! Eram vendedoras agressivas e eficazes de si próprias.
Notoriamente, a "qualidade do produto" aumentava à medida que penetrávamos no coração daquela cidade no centro da cidade. E desengane-se quem pensar que só os homens circulavam como que hipnotizados pelas ruas. Falo por mim. Obviamente que eu não estava interessada em nenhum serviço das mulheres, apenas em observá-las e estudar o ambiente. Sentia-me tonta com tanto estímulo. Calculo que devia olhar para tudo quase de olhos esbugalhados.
A par das mulheres (gordas, magras, brancas, pretas, sensuais, infantis...), havia várias lojas dedicadas ao sexo - naturalmente! Brinquedos sexuais de todos os géneros 8alguns, bem imaginativos!), preservativos, filmes, lingerie, etc. Também se encontravam espectáculos de sexo ao vivo anunciados aqui e acolá. Falou-se em irmos assitir, mas nem todos estavam de acordo, se bem que a questão nem sequer foi bem ponderada, saíu da boca de alguém como piada.
Saímos de lá com um certo peso, posso dizer. Tratva-se de algo que não sei explicar, mas que se subentende: no fundo, não conseguíamos entender como é que aquelas mulheres se prestavam àquilo, pois é mas do que a simples prostituição. Acredito que haja quem goste de o fazer, pois já aprendi que, nesta vida, há gente para tudo. Todavia, isso é ainda mais incompreensível do que aceitar que haja mulheres a prostituir-se "por necessidade", pois é mais patológico do que qulaquer outra situação. Ou será que não? Será que aquilo pode, simplesmente, incluir-se na categoria de "cada um faz o que quer com o seu corpo e ninguém tem nada a ver com isso, desde que não se afecte a liberdade dos outros"? Se assim é, por que razão são proibidos as fotografias e filmes? Se aquelas mulheres se exibem assim, por que não podem ser vistas na internet? Talvez porque os pais não saibam o que elas fazem, lá do outro lado do mundo... Julgo que, mesmo quando tudo é feito às claras e toda a gente sabe o que fazem aquelas mulheres, há sempre um momento de pura vergonha e humilhação em que leas se sentem um lixo, usadas, desrespeitadas, desvalorizadas como seres humanos e sabe Deus o que mais.
E quanto a mim, é precisamente isso o que me impressiona e me deixa incomodada. O que a sociedade diz e faz tem, sempre, uma importãncia relativa - temos a obrigação de sermos fiéis a nós próprios, se queremos ser felizes, pois os outros não vivem a nossa vida. O que verdadeiramente importa é o respeito que temos por nós mesmos - ou a falta dele... - numa situação em que nos deixamos usar, abusar, exibir e descartar como objectos sem valor. Acho profundamente triste, asqueroso e decadente.
Saí do Red Light District, portanto, com a alma pesada e suja (...).
Domingo, 6 de Julho de 2008
A escrita...
Não gosto dos seus livros, mas reconheço que esteve perfeita nesta frase. Afinal, há que saber reconhecer os méritos dos outros, mesmo quando discordamos deles ou das suas opções.















